Jovem moçambicano cria óculos que devolvem autonomia a cegos

Escrito por em 23 de Fevereiro, 2026

João Rego trabalha desde 2022 na criação dos primeiros óculos capazes de ajudar a devolver a autonomia a cegos, alimentando a vontade e o sonho de ter mais tecnologias de apoio adaptados à realidade urbana moçambicana.

Sentado à sua mesa de trabalho, nos arredores de Maputo, entre circuitos abertos e o emaranhado de cabos que dão vida às suas criações, João Rego, de 24 anos, conta à Lusa que a ideia de criar óculos para pessoas cegas nasceu em 2022, inspirado por uma reportagem que mostrava os desafios quotidianos de quem não vê.

O seu protótipo permite a localização e vibrações que interagem com o utilizador, alertando para um possível obstáculo no percurso.

“Vi uma reportagem de uma senhora cega que estava andando na cidade de Maputo e tinha uma cova à sua frente e ela colocou o pé. Nesse dia eu vi essa reportagem e sensibilizei-me com essa situação e, pronto, como eu sou da área da robótica, calhou exatamente que eu estava a projetar um robô especificamente para uma atividade que eu tinha e pensei, olha, porque não ajudar?”, relata o criador, formado em engenharia eletrónica.

Para João Rego, a engenharia é mais do que qualquer coisa uma ferramenta de resgate. Sem laboratórios luxuosos, o jovem encontra no quintal da sua casa, no bairro de Bunhiça, a cerca de 20 quilómetros do centro de Maputo, o silêncio necessário para criar, fundindo o rigor técnico com o desejo de mudar vidas e derrubar as barreiras que isolam os cerca de 700 mil cidadãos que enfrentam limitações visuais graves em Moçambique.

Os óculos, já testados por dezenas de voluntários e que passaram por várias versões e atualizações nos últimos anos, surgem hoje cuidadosamente envoltos numa capulana, tecido tradicional de cores vibrantes e padrões coloridos, que acolhe e protege um sistema tecnológico desenhado para devolver autonomia e revolucionar o dia-a-dia de quem vive com deficiência visual em Moçambique.

“Durante esse percurso, foram várias as versões que foram surgindo. Especificamente foram três versões muito trabalhadas e no meio disso eu usei recursos locais”, disse, reiterando que nem todos os recursos tecnológicos locais são acessíveis e por isso houve a necessidade de recorrer também ao mercado estrangeiro.

Segundo Rego, o protótipo, agora pré-final, dos óculos é integrado com várias tecnologias, entre as quais um sistema de localização e controlo de bateria em tempo real, além de vibrações que interagem com o utilizador, alertando para um possível obstáculo.

“Basicamente os óculos funcionam da seguinte forma, o usuário coloca os óculos, como quaisquer óculos normais, eles têm alguns sensores, a sua versão patenteada tem 10 sensores, esses 10 sensores “olham” para 10 pontos diferentes, cobrindo um ângulo de aproximadamente 120 graus. Então, dentro desse ângulo, ele consegue detetar tudo a uma distância de até oito metros, mas está otimizado para quatro metros”, explica.

Entre os benefícios da invenção, o jovem assinala que “os óculos vêm para ajudar as pessoas a ter uma locomoção mais natural, melhorada e com mais detalhes acerca do ambiente”.

“Para este ano, o objetivo principal é lançar a versão final dos óculos que, na sua fase piloto, vão ser uma versão que ajuda as pessoas a estarem mais aptas para usar os óculos no seu dia-a-dia”, diz.

Esta inovação permitirá ajudar as pessoas, por exemplo na empregabilidade, pela autonomia que proporciona, ou na educação, explica o engenheiro eletrónico.

Com o trabalho ainda em desenvolvimento, João Rego espera também abrir portas para o desenvolvimento de uma tecnologia nacional, porque, se o conhecimento é produzido no país, com muita facilidade consegue-se reproduzir em caso de uma crise, contribuindo para a independência tecnológica e científica de Moçambique.

Apesar dos óculos já lhe terem rendido distinções nacionais e internacionais, o maior sonho do jovem é ter o dispositivo usado em todo o país e ao menor preço possível.

“Para Moçambique em específico [o sonho] é tê-los a serem usados em diferentes partes das províncias que nós temos e por diferentes pessoas que têm deficiência visual e transformem as suas vidas”, diz.

“Os óculos têm essa capacidade de transformar vidas”, afirma.


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